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Para
iniciarmos a nossa volta ao passado no intuito de desvendar um pouco
mais sobre a raça Dogo Argentino, considero de interesse primário
o entendimento da origem da raça, o como, porque e para que foi
criada, quais foram as raças que intervieram na sua formação.
Mas
antes de entrarmos no assunto em si é importante termos um panorama
da mediterrânea córdoba, que certamente nos ajudara a compreender
os muitos dos porquês ? Quando ? Como?
Com
auxílio de alguns historiadores da época vamos recordar em sua "Historia
de la Provincia de Cordoba ao que era denominada Belle Epoque da
córdoba de então...
Córdoba
possuía a fisionomia das capitais desejosas de mostrar-se importante
e puljante para o resto do país. Conservadora em alguns aspectos
e progressitas na construção das suas edificações era uma cidade
cheia de vida e fortes traços culturais.
Esta
Córdoba, ao mesmo tempo espiritual e romântica, próprio da época,
misturava muitas das faces da vida colonial herdando dos antepassados
espanhóis várias paixões e, entre elas talvez uma das maiores: a
rinha de cães.
Embora
as touradas e nem as brigas de galo não tenham logrado êxito, outra
mais brutal pela qualidade de seus protagonistas ficaram populares:
La Pelea de Perros.
Apesar
das leis proibitivas muitos Cordobeses entre eles presidentes, governadores,
ministros e altos magistrados vinham se reunir e se divertir aos
domingos com o sangue dos aguerridos gladiadores caninos que eram
submetidos a essas cruéis provas.
Como
consequência de tanta paixão e interesse nos jogos, todos buscavam
obter os melhores cães, e , para esse fim recorriam aos mais diversos
cruzamentos entre as raças caninas que existiam.
Antônio
Norez Martinez que nessa época começava a se interar de "las
peleas", resolveu desenvolver uma raça superior de rinha, no
caso o objetivo era derrotar um mestiço de Boxer do Sr. Carlos Paz,
até então, imbatível.
Uma
forma integrada por cães que descendiam dos Mastins (Alanos/Perro
de Toro) que foram trazidos pelos espanhóis nos tempos das conquistas
e colonização, o Bull Terrier, o antigo Bulldog Inglês e o Boxer
formaram a Base do que seria mais tarde conhecido como "Viejo
Perro de Pelea Cordobês". Esses cruzamentos produziam os mais
famosos lutadores dando origem a exemplares adultos com mais de
30 Kg.
Essa
fórmula, guardada a princípio com zeloso segredo, foi ficando pouco
a pouco de conhecimento geral e logo foram os únicos cães que passaram
a ganhar todas as rinhas. Cada vez mais criadores adotaram essa
fórmula, que repetindo através dos tempos por intermédio de cruzamentos
entre si deram origem a uma formidável raça de luta de cor branca
ou com pequenas manchas, olhos e nariz negros, crâneo pesado, com
focinho largo, musculatura escultural que foi denominada como Viejo
Perro de Pelea Cordobes.
Entre
os exemplares que foram famosos pelo seu extraordinário valor que
que encerraram sua carreira sem perder uma única luta poderiamos
citar o Chino, Johnson y Toy, de Oscar Martinez, el Roy de los Deheza,
el Caradura de Don Rogelio Martinez, el italiano de Don Pepe Peña,
el Taitú de los Villafañe e el Centauro del Mayor Baldasarre.
O
Desenvolvimento e Difusão
Os
irmãos começaram com 10 fêmeas de Pelea Cordobés como núcleo de
criação e começaram, então, a inserir as primeiras raças, até conseguirem
as ninhadas promissoras que mostrariam a direção desejada por eles.
Num certo período do programa eles tinham cerca de 30 fêmeas sob
seus cuidados.
Essa situação não teriam sido possível, para dois jovens que ainda
estavam na escola, sem a contribuição dos familiares e amigos que
ajudavam com doações em dinheiro e rações.
O
tempo passou e Antônio transformou-se num respeitável cirurgião.
Seus conhecimentos sobre genética melhoraram possibilitando um refinamento
do programa . Uma vez estruturado, Antônio Norez Martinez começou
a enviar animais que, até então estavam espalhados ao redor da cidade
de Córdoba cuja concentração beirava os 90%, para outras regiões.
Ao seu irmão Augustin em Santa Isabel envia alguns Dogos. Dessa
família nasce um macho chamado Uturuco que tornou-se um imbatível
campeão de rinha sendo usado como um dos pilares iniciais da raça
tamanha era sua força e rusticidade. A Catamarca, a um amigo médico,
foram enviados alguns exemplares criando um importante pólo de Dogos,
a Santiago del Estero uma outra linha de sangue, para Rio Cuarto
outro grupo.
O
projeto estava se concretizando e avançando a paços largos. Infelizmente
Antônio não viveu para ver o seu sonho realizado. Ele foi assassinado
por um jovem que tentou roubá-lo durante uma caçada de javali em
1956.
Esse
foi um período muito crítico da raça.
Augustin
após um tempo retomou o sonho do irmão mudando-se de Córdoba para
Esquel, localizado na Patagônia. Nesse intervalo de tempo quando
juntamente com outros criadores Cordobeses resolveram reiniciar
o projeto descobriu-se, que em córdoba e região pouco havia sobrando
dos antigos Dogos. Em uma das muitas conversas com amigos de criação
na Argentina tive a oportunidade de conversar durante longo tempo
com um Velho Doguero muito íntimo da família Nores Martinez. Ele
confessou não só a mim como a outros criadores junto a mesa que
nessa época quando sabiam da existência de algum Branco ( fosse
o que fosse ) em qualquer lugar iam como loucos para resgatá-los,
tamanho era o desespero para que a raça não se perdesse no tempo....
Fazendo
contato com as antigas regiões iniciais ( Catamarca, Santiago del
Estero e Rio Cuarto ) conseguiu-se juntar perto de 15 animais, o
que era insuficiente para a reconstrução da raça. Porém Augustin
participou na construção e sabia perfeitamente quais as raças que
intervieram na formação original do Dogo Argentino. Após árduo trabalho
montou novamente a raça e refundou o Clube do Dogo Argentino em
Córdoba em 1964. Dessa nova linha saíram animais para Rosário, Mendoza
e outras localidades.
Em
Buenos Aires as exposições e os aficionados começaram a aumentar
e a raça começava a ganhar cada vez mais admiradores. Em meados
de meio da década de 80, se não me falha a memória, surge um Dogo
cujo o porte e estrutura era muito superior a todos em Buenos Aires
na época. O Blanco Alumine.
Infelizmente
esse fato junto com interesses comerciais foram interpretados (
intencionalmente ou não ) de forma totalmente errônea. É sabido,
segundo relatos da época, que os animais de maior porte tinham maior
procura tanto na Argentina como no exterior. Até ai segue a lógica
de sempre buscar animais mais robustos. Porém não gigantes !!!
Valendo-se
disso um criador muito famoso do interior da Argentina inseriu Dogue
Alemães ( Daneses ) na sua linha de sangue. Em pouco tempo animais
muito maiores começaram a ser exportados em grande quantidade para
toda a parte do mundo ajudando a contribuir com a alta incidência
de Dogos Adanesados ( Cabeça de Dogue Alemão com lábios excessivamente
pendentes ), carência de pigmentação além do tamanho totalmente
fora do padrão oficial. Essa política também foi copiada por alguns
outros poucos criadores ( ainda que pouquíssimos contribuíram
de forma negativa na divulgação da raça no exterior ).
Talvez
por conta disso, criou-se um padrão de Dogos em boa parte do mundo,
de animais que não condizem com o verdadeiro Dogo Argentino. Dessa
forma abriu-se precedente para alteração do Standard que tanto vem
nos desgastando ao longo dos anos...
Atualidade
Hoje
ainda caçadores na Argentina e nos países vizinhos usam Dogo para
a caça de Pumas e Javalis. Essa é a melhor maneira de manter o seu
espírito de caçador vivo.
Uma
das características mais marcantes na raça é a sua coragem...
Ela é tida por muitos como legendária. É fácil entender o porque.
As
mais selvagens feras, quando vêem perigo de vida, frente a um inimigo
superior em força e tamanho cedem terreno, abdicam da sua agressividade,
fogem da luta e buscam salvação no meio da selva.
Todos os seres racionais e irracionais primam por esse instinto
de conservação acima de todos os outros.
O
Típico Dogo Argentino - e há mil provas disso – prima pelo instinto
combativo ao da conservação, e consequentemente não nos surpreende
quando o vemos gravemente lesionados, muitas vezes quase morrendo,
sem ceder a luta com javalis muito vezes o seu tamanho. Isso não
quer dizer que o Dogo Argentino seja um cão feroz - o que significa
ser agressivo sem discernimento -, mas sim um cão valente e muito
equilibrado , o que é uma condição oposta a ferocidade. Porque valente
significa ser decidido para a luta, tenaz em combate, capaz de assimilar
o castigo sem protestar, sem ceder um palmo na contenda, de lutar,
se preciso for, a custa da sua própria vida apenas pelo prazer de
cumprir o que o foi ordenado pelo seu dono. Companheiro dedicado
e obediente, mostra-se totalmente submisso às ordens do proprietário
e da família com quem convive.
Sempre
interessado em todas as atividades da família, é sensível e inteligente
o bastante para reconhecer as pessoas que não fazem parte do círculo
familiar, e ainda assim, permitir que elas possam integrar e participar
da vida dos seus donos. Extremamente tolerante com crianças, ele
é usado pela polícia federal da Argentina, México, EUA, Holanda
e de Israel.
P.S.
Agradecemos ao nosso amigo Osvaldo Paiva (Cabanã Bravura
Del Ayar), pela excelente narrativa deste histórico.
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